terça-feira, junho 29, 2010

Galardão - parte III

Ao analisar os galardões de I Coríntios 3 sob essa ótica, podemos compreender o que poderia parecer uma contradição entre o que Paulo diz sobre o próprio ministério no terceiro capítulo e sobre o que ele diz sobre o próprio ministério no nono capítulo.

Pois no terceiro capítulo ele diz:
Pois, que é Apolo, e que é Paulo, senão ministros pelos quais crestes, e isso conforme o que o Senhor concedeu a cada um? Eu plantei; Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. De modo que, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. - I Coríntios 3.5-7
Aí Paulo dá a entender que os resultados de seu ministério eram inteiramente dependentes de Deus. Ele excluí o seu próprio trabalho de ser a causa do crescimento, mas atribui o crescimento inteiramente a Deus.

Por outro lado, no nono capítulo da mesma carta ele diz:
"Pois, sendo livre de todos, fiz-me servo de todos para ganhar o maior número possível. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns".- I Coríntios 9.19-22
Como nós já vimos, no contexto deste capítulo, Paulo vinha argumentando que ele abria mão de seu direito de ser sustentado econômicamente em seu ministério para que ninguém falasse que ele tinha segundas intenções como pregador do evangelho. Da mesma forma, Paulo vai argumentando que em todas as ocasiões, ele abria mão de suas liberdades nas situações em que o uso de suas liberdade viesse a fazer os outros pensar algo de errado dele, condenando-o por algo que ele não era:
"Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à submissão, para que, depois de pregar a outros, eu mesmo não venha a ser reprovado".-I Coríntios 9.27
Mas aí está o paradoxo. Se "nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento" por qual motivo ele diz que "sendo livre de todos, fiz-me servo de todos para ganhar o maior número possível"? Isso não dá a entender que o seu procedimento em relação a todos seria um fator determinante para a salvação deles de forma que isso não era algo exclusivamente dependente de Deus?

Esse paradoxo é resolvido se entendermos a verdadeira natureza dos galardões, tanto no capítulo três quanto no capítulo nove. O galardão no texto, como já vimos é a conversão daqueles que ele se propunha a evangelizar em seu ministério. É por isso que ele diz:
"Pois, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, porque me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho! Se, pois, o faço de boa vontade, tenho galardão; mas, se não é de boa vontade, estou apenas incumbido de uma mordomia". - I Coríntios 9.16-17
O motivo pelo qual ele chama os convertidos de galardão é exatamente porque a conversão deles não era causada diretamente pela diligência dele em seu ministério, abrindo mão de seus direitos, de suas liberdades, fazendo-se servo de todos. Não era causada diretamente por isso, pois "nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento". O êxito em seu ministério não era causado diretamente por sua perseverança, mas era dado como um prêmio por Deus. É por isso que ele diz: "veja cada um COMO edifica sobre ele". (I Co 3.10) Ele avisa isso pois, "se, pois, o faço de boa vontade, tenho galardão" (I Co 9.17) Aqueles que edificavam com boa vontade veria o êxito do seu trabalho como o ouro sendo colocado no templo. Aqueles que edificavam com má vontade, não veriam o ouro sendo produzido pelo seu ministério, mas veriam "madeira, feno e palha".

O que Paulo está dizendo aqui é que aqueles ministros que forem fiéis em seu ministério, verão o sucesso espiritual do seu ministério, não porque eles, em si mesmo sejam alguma coisa, mas porque Deus os recompensará assim. Por outro lado, aqueles ministros que deixarem a desejar, verão o fracasso do seu ministério, como um fogo provando a obra de cada um se é de pedra preciosa sendo refinada ou se é de palha sendo queimada.

É por isso que ele diz:
"Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele prejuízo; mas o tal será salvo todavia como que pelo fogo". - I Coríntios 3.15
O fogo aqui são os fogos das tribulações que revelará o fracasso do ministério, feito com má vontade e por isso produzindo não pedras preciosas na Igreja de Deus, mas simplesmente colocando lá aqueles que não deveriam estar lá.

segunda-feira, junho 28, 2010

Galardões - parte II

Um texto muito usado pra defender a "teologia do galardão" está em I Coríntios:

"A obra de cada um se manifestará; pois o dia a demonstrará, porque será reveldada no fogo, e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se permanecer a obra que alguém sobre ele edificou, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele prejuízo; mas o tal será salvo todavia como que pelo fogo". - I Coríntios 3.13-15

Para os defensores da teologia do galardão, esse texto ensina que as obras dos cristãos serão julgadas de forma que aquelas obras que não forem boas, significará perda de galardão. Por outro lado as boas obras trará maiores galardões para o cristão na eternidade. Dessa forma alguns cristãos terão mais galardões do que outros, dependendo das boas obras realizadas.

Mas esta interpretação não está de acordo com o que Paulo realmente está dizendo no texto. Para entender o que Paulo está realmente dizendo, nós iremos analisar o texto dentro de seu contexto e ainda iremos analisar um outro capítulo da mesma carta que serve de esclarecimento para este.

"Pois, que é Apolo, e que é Paulo, senão ministros pelos quais crestes, e isso conforme o que o Senhor concedeu a cada um? Eu plantei; Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. De modo que, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Ora, uma só coisa é o que planta e o que rega; e cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho. Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus".- 1 Coríntios 3.4-9

O capítulo começa explicando qual é o papel dos ministros de Deus em relação a obra Evangelho. "Eu plantei; Apolo regou; mas Deus deu o crescimento". Aí Paulo explica que o sucesso dos ministros do Evangelho não depende deles mesmos, mas depende de Deus em fazer com que a obra dê fruto. De nada adiantaria Paulo plantar e Apolo regar, se Deus não desse o crescimento. Daí se conclui que "nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento".

É aí que Paulo vai falar em galardão pela primeira vez no capítulo: "uma só coisa é o que planta e o que rega; e cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho". É preciso ressaltar que até esse momento, não há qualquer definição do que seja esse galardão. Estão em erro aqueles que querem, com base nesse verso somente, chegar a uma conclusão sobre o que seja. Ele não diz o que o galardão é, até o momento, mas diz somente "cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho".

Em seguida, Paulo começa a escrever de forma alegórica a respeito dos cristãos. "Vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus". A figura do edifício para falar da Igreja de Cristo é uma figura de linguagem encontrada em outros lugares. Neste capítulo, Paulo pergunta: "Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?" (1 Coríntios 3.16) Em Efésios, lemos: "Assim, pois, não sois mais estrangeiros, nem forasteiros, antes sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício bem ajustado cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus no Espírito". (Efésios 2.19-22)

Então não podemos perder de vista que em I Coríntios Paulo está falando da edificação da Igreja. Ele cita a si mesmo junto de Apolo como edificadores da Igreja. Ele começa lançando o fundamento da construção que é Jesus Cristo. "Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo". (1Co 3:11) Depois disso, por meio da pregação, o edifício vai sendo erguido na conversão de cada cristão. Depois ele começa a falar dos próprios membros da Igreja ajudando na construção do edifício: "veja cada um como edifica sobre ele".- I Coríntios 3.10

Então Paulo fala sobre os componentes do edifício: "E, se alguém sobre este fundamento levanta um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha..."(1 Coríntios 3:12) Os componentes do edifício, como já vimos, é definido por Paulo como sendo as pessoas que se encontram na Igreja: "Não sabeis vós que sois santuário de Deus?" (I Coríntios 3.16)

É então que Paulo fala do diversos tipos de pessoas que são colocados no edifício: "...de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha. A obra de cada um se manifestará; pois o dia a demonstrará, porque será revelada no fogo, e o fogo provará qual seja a obra de cada um".(1 Coríntios 3.12-13) Os diversos tipos de materiais que são citados representa os diversos tipos de pessoas que se encontram na Igreja. Aqui há algo importante: Muitos que se encontram no meio do povo de Deus, não fazem parte da Igreja verdadeiramente. Alguns que estão no edifício não fazem parte do edifício verdadeiramente. Estes são como Judas que foi contado como um apóstolo, mas não era verdadeiramente um ministro de Deus.

É por isso que Paulo fala do "ouro, prata e pedras preciosas", mas também fala da "madeira, feno e palha". Daí entra a alegoria do fogo: "será revelada no fogo, e o fogo provará". A madeira, o feno e a palha são materiais que, são queimados pelo fogo. Mais o ouro, a prata e as pedras preciosas não são queimados, mas refinados diante do fogo.

Mas o que Paulo quer significar aqui ao falar figuradamente do "fogo"? "Fogo" e "dia" significam a mesma coisa aqui. Pedro ensina: "Pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para a salvação que está preparada para se revelar no último tempo; na qual exultais, ainda que agora por um pouco de tempo, sendo necessário, estejais contristados por várias provações, para que a prova da vossa fé, mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo".(1 Pedro 1.5-7)

Pedro aqui fala do verdadeiro cristão com sua fé como sendo ouro sendo provado pelo fogo. E o que seria esse fogo? Pedro diz que são as várias tribulações que são enfrentadas pelos cristãos. O verdadeiro cristão não é destruído em tais tribulações, mas a sua fé é refinada assim como acontece com o ouro no fogo. É o que diz o Salmo: "Pois tu, ó Deus, nos tens provado; tens nos refinado como se refina a prata". (Salmo 66.10) Mas aqueles que não são verdadeiramente "ouro" no edifício de Deus, não tem a verdadeira fé. São como "madeira, feno e palha" que diante das provações se queimam e são destruídos por terem uma falsa fé.

Isso que Paulo diz em I Coríntios é exatamente a mesma coisa que Pedro diz em sua carta, usando a mesma figura de linguagem do "santuário". "Amados, não estranheis a ardente provação que vem sobre vós para vos experimentar, como se coisa estranha vos acontecesse. Se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus. Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e se começa por nós, qual será o fim daqueles que desobedecem ao evangelho de Deus?"(1 Pedro 4:12,16,17) Nem todos os que se colocam no santuário são verdadeiramente do santuário. "O fogo", isto é, "as tribulações", fazem com que os que não são verdadeiramente, revelem o que eles realmente são.

É aí que Paulo diz: "Se permanecer a obra que alguém sobre ele edificou, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele prejuízo; mas o tal será salvo todavia como que pelo fogo". (1 Coríntios 3.14-15) Como nós já vimos, a "obra" aí, são aqueles que são colocados na Igreja, por meio da pregação. Essa pessoa poderá ser um verdadeiro cristão ou não. Se a obra desta pessoa permanecer, isto é, se tal pessoa for um verdadeiro cristão, a pessoa que trabalhou pra que ela estivesse lá, receberá galardão.

Mas aí nós precisamos nos perguntar: O que é esse galardão? Paulo explica no nono capítulo da mesma carta:

"Logo, qual é o meu galardão? É que, pregando o evangelho, eu o faça gratuitamente, para não usar em absoluto do meu direito no evangelho. Pois, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos para ganhar o maior número possível: Fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse eu debaixo da lei (embora debaixo da lei não esteja), para ganhar os que estão debaixo da lei; para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns". - I Coríntios 9.18-22

No nono capítulo de I Coríntios, Paulo vinha explicando como ele, como apóstolo, tinha o direito de ser econômicamente sustentando pela Igreja pelo seu ministério. Mas aí ele afirma que ele abria mão desse direito dele de ser sustentado pela Igreja. E por que Paulo fazia isso? É porque pregando o evangelho sem qualquer retorno financeiro pra isso, Paulo dava a entender aos seus ouvintes que o seu objetivo era desprovido de qualquer interesse pessoal. Ele mostrava que não tinha segundas intenções, mas que sua única intenção era a salvação dos homens. Se ele fosse sustentado econômicamente, muitos poderiam dizer que ele pregava por interesse e por isso não dariam ouvidos a ele.

Então o que Paulo vai argumentando é que, de todas as maneiras, ele abria mão de seus direitos, se ao abrir mão desses direitos, isso contribuísse por uma maior expansão do evangelho.

Esse era o seu galardão! Essa era a sua recompensa! A salvação dos homens! Que os homens fossem colocados no santuário como ouro e não como palha! Essa é a recompensa daqueles que vêem, por seu ministério, homens sendo revelados como crentes de verdade e não como falsos.

Esse é o galardão pelo qual devemos lutar!

Galardões.

Uma doutrina muito professada entre cristãos de nossos dias é a chamada "teologia do galardão". A teologia do galardão diz que, no Reino de Deus, os cristãos irão receber diferentes níveis de "galardões", cada um de acordo com o procedimento que tiveram aqui na terra. A teologia do galardão, portanto, não é relacionado a questão da possibilidade de perda de salvação. A teologia do galardão diz simplesmente que entre os salvos, haverá diferentes níveis de recompensa , uns sendo mais recompensados do que outros, devido a maior ou menor fidelidade a Deus que tiveram aqui na terra.

Mas apesar da teologia do galardão ser muito difundida entre cristãos professos em nossos dias, ela está em contradição direta com princípios fundamentais da doutrina de Jesus Cristo. Na verdade, a teologia do galardão é tão contrário aos princípios fundamentais do Evangelho, que eu fico até envergonhado em saber que existam cristãos que não tenham percebido isso.

Na carta de Paulo aos Romanos, por exemplo, nós lemos: "Jesus Cristo foi entregue por causa das nossas transgressões, e ressuscitado para a nossa justificação".(Romanos 4.25) E aos Corintios ele diz: "Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras".(1 Coríntios 15.3)

Ora, se Cristo foi entregue por causa de nossas transgressões, se Cristo morreu por nossos pecados, se a justiça de Cristo foi imputado a nossa conta, como seria possível então alguns cristãos serem vistos por Deus como merecedores de galardões maiores do que outros? Pois se a justiça de Jesus Cristo é imputada em nossa conta, então Deus não poderá julgar um cristão como sendo mais justo do que outro, já que ambos só são sequer considerados justos porque toda a justiça de Cristo foi imputada sobre eles. Se as falhas de cada cristão foram imputadas em Cristo e se a justiça de Cristo foi imputada aos cristãos, então os cristãos não poderão perder qualquer galardão com base em suas falhas, pois as suas falhas já foram imputadas sobre Cristo.

Síndrome de Estocolmo: Por que este blog se chama assim?

Estocolmo, capital da Suécia. São dez e quinze da manhã de uma quinta-feira, 23 de agosto de 1973. Dois fugitivos da prisão entram em um banco, o Banco da Suécia, com o intuito de assaltá-lo. Portando sub-metralhadoras, rendem os guardas, e em pouco tempo colocam todos à mercê de sua truculência.

Após aproximadamente cinco dias de tensão, os assaltantes são rendidos e os reféns, libertados. Mas, certamente, ninguém poderia prever o que aconteceria depois: os reféns manifestaram grande hostilidade contra os policiais e defenderam ardorosamente os assaltantes que os agrediram e humilharam. Os reféns passaram a se identificar com os assaltantes. O que teria acontecido?

Os reféns passaram a manifestar um conjunto de sintomas caracterizados por sentimentos positivos que a vítima desenvolve pelo seu agressor ou captor, e sentimentos negativos para com todos aqueles que tentam, de alguma forma, interferir nessa relação de dependência. Esse estranho comportamento ficou conhecido entre os psicólogos como Síndrome de Estocolmo, em alusão ao lugar em que ocorreu o assalto. costuma ocorrer após um tempo suficientemente prolongado de intimidação psicológica.

Mas o que isso tudo tem a ver com o nosso blog? Essa é a síndrome que Jesus disse que existe entre os homens e os poderes que lhes mantem cativos da mentira.

"Por que não compreendeis a minha linguagem? é porque não podeis ouvir a minha palavra. Vós tendes por pai o Diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele é homicida desde o princípio, e nunca se firmou na verdade, porque nele não há verdade; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio; porque é mentiroso, e pai da mentira. Mas porque eu digo a verdade, não me credes. Se digo a verdade, por que não me credes? Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso vós não as ouvis, porque não sois de Deus". - João 8.43-47

Esse é o estado no qual a humanidade se encontra. É disto que Jesus veio nos libertar.